Comemorar o que?

Preliminarmente, relembro que posto aqui minha opinião. Esse blog não tem objetivo de fazer ciência. Nem sempre deposito fidelidade científica ao que publico aqui. Tento apenas escrever sobre o que sei, nunca sobre o que não sei. Mas então…

Nenhuma luta deve ser desmerecida. Nem mesmo quando ela parece desnecessária. O feminismo vive um momento de alta e baixa, quase que ao mesmo tempo, porque é moda ser feminista, sem nem saber do que se trata o movimento, e criticar o feminismo, também sem saber do que se trata o movimento.

A luta feminista não é criação de mulheres que querem ser melhor que os homens. Nenhuma feminista quer ser melhor do que ninguém, quer apenas poder gozar dos mesmos direitos. Quer ser sujeito no processo, não objeto. Ver homens reproduzindo discursos e atitudes machistas hoje, em pelo Século XXI, é lamentável. Ver mulheres fazendo a mesma coisa é demonstração que o feminismo ainda tem muito caminho para percorrer.

Há uns 80 anos, as mulheres não votavam no Brasil. Sim, elas não eram cidadãs, pois não participavam do processo democrático (eram objetos, não sujeitos) e não gozavam dos direitos de cidadania. O voto não era proibido expressamente, mas não era autorizado expressamente, o que sugeria o desinteresse legislativo para com a participação feminina na escolha dos representantes do Estado.

No Código Civil de 1916, a mulher era obrigada a adotar o sobrenome do marido. Ela também não podia sequer litigar livremente em juízo sem autorização do marido, o que apenas em 1962 foi suprimido por lei nova. Ela também não podia trabalhar sem autorização do marido. Como bem esclarece Maria Berenice Dias [1], o casamento tirava da mulher a plena capacidade civil. Escolher não se casar também não era uma opção, pois mulher que não casa é puta ou encalhada.

Não pensem que isso tem muito tempo. Um século não é muito tempo em um mundo que conta com 2016 anos depois da vinda de Cristo, e muitos outros séculos antes do messias. Ainda hoje, a mulher é objeto em muitas sociedades. Alguns dizem que é uma questão cultural. Mas a pergunta feita por meu muito perspicaz professor Dr. Alexandre Coura é: se a mulher for sujeito nessa sociedade, ela aceitará determinadas imposições que lhe são feitas? Para saber se a questão é cultural ou não, a escolha é fundamental. E não, as mulheres não têm direito de escolher se são sujeitos ou objetos. Elas são. Simples assim.

A jovem branca de classe alta que se dispõe a ir a público dizer que gosta de machismo, ou que despreza o feminismo, só pode fazer isso por causa do mesmo feminismo que ela critica. É a luta de alguns que desobjetifica muitos. A mulher não está em condições de igualdade com o homem, não importa o que diga o artigo 1º da Constituição Federal.

Ainda hoje, a mulher recebe menos que o homem no mercado de trabalho.

Ainda hoje, a mulher cuida da família enquanto o homem “ajuda”. Ou ela cuida da família sem qualquer ajuda, porque a função do homem é sustentar a casa.

Ainda hoje, as mulheres não podem vestir a roupa que querem porque “mulher precisa se dar ao respeito” e não provocar os homens. Depois são estupradas e bem feito, ficaram se exibindo.

Ainda hoje, mulheres acompanhadas de outras mulheres estão sozinhas, pois presume-se que mulher não pode andar por aí sem companhia masculina que vira presa fácil para abusadores. E bem feito, quem mandou provocar?

Ainda hoje, mulheres são obrigadas a criar os filhos sozinhas, pois a elas não é permitido abortar enquanto aos homens é permitido abandonar seus filhos. Não é permitido? Então o que acontece quando eles abandonam?

Ainda hoje, mulheres são minoria nos postos mais altos das academias, excluídas das palestras e dos espaços de poder. As exceções que lá estão não condizem com uma efetiva abertura desse campo para a mulher.

Ainda hoje, mulheres precisam saber o seu lugar e ganhar panelas, liquidificadores ou pratos no aniversário, no dia das mães, no Natal.

Ainda hoje, mulheres precisam ser lindas e sempre jovens, enquanto homens têm autorização para engordar, ficar careca, envelhecer, adoecer e ficar cansados. As mulheres não podem adoecer, pois, se adoecem, quem vai cuidar das coisas?

Ainda hoje, as mulheres morrem simplesmente por serem mulheres.

Então, não sei bem o que celebramos no dia 08 de março. Uma luta que não acabou, um movimento que não pode esmorecer, e um discurso que precisa continuar. Enquanto uma mulher passar pelo que listei acima, o feminismo é necessário, sim. Não precisamos de flores, precisamos de respeito.

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DIAS, Maria Berenice. A mulher no Código Civil. Disponível em http://www.mariaberenice.com.br/uploads/18_-_a_mulher_no_c%F3digo_civil.pdf

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