Somos estupradas

Uma garota de 16 anos foi estuprada por 30 homens. Eles filmaram. Eles publicaram na internet. A família dela viu. Todos viram. A notícia está por aí. O vídeo também. As pessoas dizem que a família tem culpa. Afinal, ela tinha 16 anos e estava dormindo na casa do namorado. As pessoas dizem que a menina tem culpa. Afinal, ela não devia estar se dando ao desfrute por aí.

O que aconteceu transcende a própria violência. O que aconteceu é fruto de como a sociedade enxerga as mulheres. O que aconteceu é o resultado de uma sociedade que insiste em fingir uma igualdade que nunca existiu e fecha os olhos para o abismo que separa homens de mulheres, em todas as esferas da vida.

Nós, mulheres, somos estupradas todos os dias. Nós, mulheres, somos violentadas todos os dias. Sofremos violência de todo tipo apenas porque somos mulheres, objetos, e alguém considera que podemos e queremos ser usadas, regradas, normalizadas. O dia-a-dia da mulher é enfrentando todo tipo de violência, e dói muito ver que essa violência está tão normalizada no imaginário social que as próprias mulheres não conseguem enxergá-la. Acham que é assim mesmo.

Somos obrigadas a saber nosso lugar. Mulher não pode sair sozinha, nem acompanhada de outras mulheres – é puta. Mulher tem que andar acompanhada de homem, assim é decente. Mulher tem que ser decente. Não pode ser puta.

Somos obrigadas a saber nos vestir. Não podemos usar o que queremos, porque mulher que usa decote, alcinha, short, saia curta, é puta. E puta merece cantada grosseira, merece passada de mão, merece assédio no ônibus, merece ser estuprada. Mulher tem que se dar ao respeito. Não pode ser puta.

Somos obrigadas a namorar, então noivar, então casar. Mulher que prefere viver solteira é encalhada, tiazona, que ninguém quer. Mulher solteira é vadia, e mulheres precisam ter família, se endireitar. Não pode ser vadia. Se casamos, somos obrigadas a ter filhos. Mulher que não é mãe é incompleta. É vazia, oca, encruada. Tem que ter filho, dar filho para o marido, senão é uma egoísta sem coração.

Somos obrigadas a cuidar da casa, porque a casa é nossa obrigação. Muitas pessoas moram nela, mas apenas a mulher tem o dever de cuidar. Mulher que não cuida da casa é relaxada, negligente, não liga para o marido nem para os filhos. Mulher tem que fazer comida, manter tudo limpo e arrumado, lavar a roupa, cuidar de tudo. Se não, foi mal criada. Mas mulher também tem que trabalhar fora. Mulher que não trabalha fora é dondoca, madame, só quer viver às custas do marido, é gastadeira, não contribui para a sociedade. Mulher tem que cuidar da casa e trabalhar fora, afinal, quem mandou casar e arrumar filho? Que aguente.

Somos proibidas de nos divertir. Mulher que sai à noite é puta. Mulher que vai ao barzinho tomar uns drinques e fica bêbada é puta. Mulher que vai ao cinema sozinha é encalhada. Mulher que viaja sozinha é louca, está se arriscando, vai ser sequestrada por aí. Se queremos nos divertir, temos que fazer com o marido, com a família. Mulher tem que ter família, senão é tiazona. Ou é puta, e não pode ser puta.

A sociedade que obriga as mulheres a obedecerem um padrão medieval de comportamento é a sociedade que estupra. É a mesma sociedade que justifica a violência sofrida pela mulher pela roupa que ela vestia, pelo lugar que ela frequentava, pelas pessoas com quem ela se relacionava. Nesse final de semana, não foi uma jovem estuprada por 30 homens. Foram todas nós, mulheres. O que fizeram com ela se acham no direito de fazer com todas. Enquanto essa sociedade acreditar que nós, mulheres podemos ser violentadas simplesmente porque somos mulheres.

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