Precisamos falar sobre Christian Grey

Acabo de entrar no twitter para conferir o que está rolando e me deparo com uma hashtag que me atraiu imediatamente: #erelacionamentoabusivoquando. Claro que estão falando de violência de gênero, claro que estão falando de um assunto muito, mas muito comum e que ainda tem gente que diz que é invenção do feminismo.

Um dos tweets que mais me chamou atenção foi o que comparava o relacionamento de dois “casais” da moda: o Coringa com a Arlequina e o Christian Grey com a Anastasia Steele. Vamos falar um pouco do segundo, porque meus argumentos para o primeiro não são suficientes para um debate sólido. Não sou leitora de HQs e a única coisa que sei é que o Coringa e a Arlequina têm um relacionamento doentio e extremamente abusivo. É suficiente, mas não é.

Já a coisa entre o Grey e a Steele é diferente, pois eu li toda a trilogia “Cinquenta Tons…” e posso dizer que ela me ofendeu imensamente. Fui ofendida como escritora, como leitora e, mais profundamente, como mulher. As ofensas à escritora Tatiana e à leitora Tatiana residem no fato de E. L. James escrever mal, bastante mal, e ter publicado uma fanfiction não adaptada como se fosse a coisa mais original do mundo. A história é apressada, as personagens mal construídas, o enredo é pobre e a repetição de palavras e eventos é irritante. Sem contar que qualquer pessoa sabe que Grey é, na verdade, Edward Cullen, enquanto Steele é Bella Swan. Fail.

Já a ofensa como mulher é algo mais delicado. Sou mulher e sou feminista, e não consegui engolir a romantização de um relacionamento abusivo, a tentativa de fazer com que nós acreditemos que homens abusivos, violentos, possessivos e descontrolados possam ser românticos. Christian Grey é uma personagem fictícia, mas podia ser o cara que mora na casa do lado, pois existem muitos como ele, por aí.

O pior é que funcionou. Muitas conhecidas que leram o livro enchem a boca para dizer que o livro é romântico, que queriam um Christian Grey para elas, que aquilo sim é amor. Há uma percepção distorcida sobre um relacionamento saudável entre duas pessoas, e isso me leva a pensar por que tantas mulheres acabam se envolvendo com homens desse tipo e aceitando continuar com homens desse tipo. Por que homens são assim, por que mulheres os aceitam assim?

Então, uma obra literária, mesmo ficcional, que nos empurre um relacionamento abusivo, de exploração sexual, física e psicológica, no qual a mulher é obrigada a comer o que o homem escolhe, vestir o que o homem escolhe, viver a vida que o homem determina, sair apenas acompanhada por ele ou por quem ele determina, é uma violência nos tempos atuais, em que tanto se vê mulheres morrendo pelas mãos de seus companheiros – que acreditam ser os senhores possuidores das vidas delas.

Christian Grey não é romântico. Ele foi abusado durante sua infância, foi abusado durante sua adolescência, tornou-se um abusador de mulheres. Não que as duas coisas tenham relação absoluta, mas é isso que a história mostra. Ele é um homem violento e possessivo. Ele muda durante a trama? A autora fez com que ele mudasse, mas os homens da vida real mudam? Afinal, a vida real não é um conto que pode ser alterado ao prazer do escritor.

Precisamos parar de acreditar nisso. Homens abusivos não são românticos. Relacionamentos abusivos quase nunca acabam bem. Não se muda ninguém com “a força do amor”, as pessoas só mudam com ajuda profissional e/ou muita força de vontade. Esse romance todo fica muito bonitinho na literatura de ficção, mas, na vida real, são as mulheres que acabam se tornando estatística da violência doméstica.

Então, palmas para a hashtag de hoje, principalmente considerando o recente lançamento do trailer do segundo filme da série Cinquenta Tons. Que mais pessoas discutam sobre relacionamentos abusivos, que mais mulheres possam debater sobre isso e enxergar os malefícios que esse tipo de relacionamento pode causar.

Pin It
blog comments powered by Disqus Acessos: 8