Empatia, simpatia, alteridade e assimilação do Outro.

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Eu e José estávamos conversando. Sentados à mesa, falávamos sobre liberdade de expressão – essa figura tão complicada de traçar contornos, ultimamente. Então chegamos em um ponto de discordância: o governo militar no Brasil, entre 1964 e 1984. Eu chamei de ditadura, ele de militarismo. Não quis entrar na discussão semântica. José defendeu o governo militar porque eles (os militares) nos livraram do comunismo. Também não quis entrar nesse ponto específico, já que dele discordo veementemente. Apenas falei com José que não aceito regime de exceção. Que uma democracia ruim é, para mim, melhor do que a ausência de democracia.

Estarreci-me porque José garantiu que o regime militar não foi antidemocrático. Que os militares fizeram o Brasil crescer e acabaram com a “pouca vergonha” que tinha aqui. Sobre a liberdade de expressão, assunto originário, José entendeu que ela não foi prejudicada.

Mas como, José? As pessoas não podiam falar o que queriam nem andar livremente nas ruas. Como assim, a liberdade não foi prejudicada? E José me saiu com a pérola: ninguém da minha família foi preso pelo regime militar. Só vagabundo foi preso e ele nem acredita em tudo que dizem; tem muita gente interessada em macular a imagem dos militares.


Outro dia, conversava com Paula enquanto esperava uma audiência. Processualista chata que sou, criticava o desrespeito de muitos juízes ao processo. Comentei com Paula que vivemos um período conturbado do Direito, em que cada vara parece ter seu próprio código processual, que varia de acordo com a ação, com as partes em litígio. Paula concordava comigo, até falarmos do processo penal.

Para Paula, vagabundo tem que ser preso e condenado. Nessa ordem, vejam bem. Questionei. Eu concordava com ela, no sentido de que criminosos deveriam ser punidos, mas perguntei se ela realmente acreditava que “punir a qualquer custo” no estilo “os fins justificam os meios” era válido.

Paula disse que sim. Que bandido não tinha que ter esse negócios de ampla defesa nem tanto recurso, que tinha que ser jogado na cadeia para apodrecer. Perguntei a Paula quem era o bandido e ela me disse que é quem comete crimes. O que não perguntei a Paula é se ela baixa música pirata ou assiste filmes pelos torrents. Também não quis saber quantas vezes ela já dirigiu acima da velocidade em uma via de 20km/h. Até porque Paula não considera esses crimes muito graves, entendem?

A muito correta Paula nunca teve ninguém preso injustamente na família. Nunca precisou se defender de acusações falsas e agradeceu ao devido processo legal.


Outro dia, Lucas me disse que teria uma filha e como isso mudou a percepção dele sobre as mulheres. Que ele foi um homem que não respeitava mulheres e que, agora que teria uma filha, ele passou a ver as coisas de uma forma diferente.

Perguntei a Lucas por quê. Ele disse que era por causa de sua filha, claro. Que ser pai de uma menina o fazia enxergar as mulheres com mais respeito. Que ele não iria querer que fizessem com a filha dele o que ele fez com outras garotas quando era jovem. Lucas disse que espera que sua filha não viva em um mundo que tenha mais homens… como ele.


José, Paula e Lucas são personagens fictícios. Mas essas conversas eu já tive, muitas vezes, com pessoas diferentes. Eu ouvi de colegas, familiares, pessoas da minha convivência, que a ditadura não foi ruim porque eles não conheciam ninguém preso. Ou que o processo penal poderia desrespeitar a ampla defesa, afinal, eles não conheciam ninguém que tinha sido “preso, julgado e condenado” sendo inocente. E ouvi muitos homens dizendo que só respeitavam mulheres depois que se tornaram pais, maridos, ou porque queriam respeito para suas mães e irmãs.

Qual é o problema disso? É que estamos definindo o Outro por nós mesmos. Emmanuel Lévinas, filósofo lituano-francês, ao desenvolver sua ética como alteridade, teorizou sobre como só conhecemos efetivamente o Outro quando permitimos que ele seja ele e não nós mesmos. Que a assimilação do Outro estraçalha, destrói, impede o respeito e a alteridade.

O que vemos hoje, como nunca, é isso. A empatia só se faz quando nos vemos nos outros. Quando encaixamos o Outro em nós. Ou seja, não há, de verdade, alteridade. Não respeitamos, assimilamos.

José, Paula e Lucas não enxergam o cenário, a menos que façam parte da peça.

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