O feminino não é frágil.

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Hoje, mais uma vez, deparei-me com uma publicação, nas redes, que discutia uma forma de comunicação tipicamente feminina. E a discussão estava exatamente no fato desse tipo de comunicação ser considerada como uma forma da mulher sempre se desculpar quando ela não precisa.

Imediatamente, fui remetida a um texto de Alicia Puleo, que li recentemente, Igualdad y Androcentrismo. Nesse breve trabalho, ela discursa sobre o feminismo da igualdade e o feminismo da diferença e apresenta alguns argumentos sobre o androcentrismo construído desde a Antiguidade.

Na abordagem do feminismo da diferença, naquele período, de conquistas de territórios e dominação de povos, os homens se lançavam à guerra e às longas viagens e batalhas por poder e propriedade. As mulheres ficavam nas cidades, exercendo cuidados variados com as construções, as pessoas mais velhas, as crianças. Assim, foi nesse período que o feminino passou a ser considerado inferior ao masculino, mais frágil e menos útil para a sociedade. Desde a Antiguidade, o trabalho doméstico e o cuidado, que eram exercidos por mulheres, foram desqualificados e desmerecidos em relação à conquista, à dominação e à violência que eram empregadas pelos homens, em suas relações políticas.

Boff e Muraro dizem o mesmo em sua obra conjunta, Masculino e Feminino. É um grande livro, que apresenta pontualmente, inclusive teologicamente, como que masculino e feminino já coexistiram sem que um oprimisse o outro, apesar de suas diferenças. Que o feminino e o masculino se separaram, em um período histórico consistente com a Antiguidade (convergindo com os estudos de Puleo sobre feminismo da diferença) e que o feminino se tornou sinônimo de fraqueza e debilidade.

E, desde então, mulheres são constrangidas por serem femininas. São consideradas fracas, inferiores, menos capazes, loucas, instáveis. As diferenças biológicas entre masculino e feminino são reforçadas positivamente, para o homem, e negativamente, para a mulher. Vários papéis foram atribuídos exclusivamente às mulheres em razão disso, assim como elas foram excluídas da construção das sociedades, segregadas aos ambientes domésticos, por serem consideradas fracas e inaptas para a política. O cuidado é tido como fraqueza.

Isso não foi desconstruído exatamente pelas lutas feministas. Os muitos feminismos se entrelaçam e se separam, mas nem todas as lutas reconhecem que esse princípio feminino exista e que deva ser valorizado, ao invés de erradicado. Apenas as “feministas da diferença” lutam por uma mudança de paradigma em que o feminino passe a ser visto como valor positivo e, até mesmo, salvador da sociedade contemporânea.

Uma professora e amiga disse, uma vez, que nós iniciávamos nossa jornada pelo feminismo como liberais, e terminávamos como radicais. Vou discordar dela em um ponto: eu estou na minha jornada, ainda, e já abandonei o liberalismo faz tempo, porém me identifico com a diferença, mesmo que não absolutamente e mesmo que seja impossível, e não desejável, estabelecer um objeto universal para a luta feminista.

Uma mulher não fala com suavidade porque está se desculpando, não usa argumentos de consenso e abertos ao diálogo porque ela não tem segurança ou não consegue se posicionar definitivamente. Uma mulher abre o consenso sempre porque um debate é feito de múltiplas vozes e opiniões, e só é possível travá-lo se ouvirmos todas essas vozes. O ser feminino não é uma fraqueza, nem uma debilidade. Não precisamos abandonar o cuidado e a busca pela mediação e menor enfrentamento apenas porque homens decidiram que isso é sintoma de fraqueza.

Construir uma sociedade nova, sem misoginia e machismo, deve passar, também, pela desconstrução de valores arraigados do androcentrismo, que eleva o masculino a uma categoria de divindade, enquanto o feminino é ridicularizado. Não vejo como poderemos romper com a violência que nos oprime mantendo as mesmas bases patriarcais e machistas que fundaram a sociedade ocidental. É importante, para o feminismo, como movimento com um objetivo central e um propósito estabelecido, debater essas questões – invisibilizar o feminino é permitir que o masculino se mantenha como único valor válido a ser considerado.

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