O silenciamento das mulheres

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Boa tarde, leitoras e leitores.

Não podemos negar que as eleições brasileiras de 2018 possuem diversas peculiaridades, comparadas com outras que experimentamos em nossa curta democracia. Alguma similaridade com a recente eleição de Donald Trump, nos EUA. Muitos candidatos falando mais do mesmo em um cenário de grave crise política e disseminação sem controle de fake news. Dentro desse caos, que me faz ter esperança de um realinhamento em breve, recorto algumas situações específicas para comentar no texto de hoje.

A presença de um candidato fascista, a sua campanha presidencial e seu discurso, sua rejeição crescente, a ação política de seus seguidores, eleitores e equipe, e a atitude das mulheres em relação a tudo isso.

Historicamente, as mulheres são silenciadas há séculos em uma sociedade formada sobre o masculino. Essa sociedade desqualifica tudo que rotula como feminino, inferioriza o gênero mulher, despreza a capacidade intelectual feminina e impede que mulheres participem ativamente da sociedade. A construção de uma sociedade androcêntrica, misógina, não foi fácil nem aconteceu de um dia para outro – foram décadas de silenciamento e apagamento do feminino para que chegássemos ao que vivenciamos na Idade Média, por exemplo, com a caça às bruxas.

Em minha tese, discorro intensamente sobre o projeto de invisibilização histórica das mulheres e o quanto esse projeto ainda está em vigor, no mundo contemporâneo do Século XXI. Isso nos custou muito, e a busca por uma reversão desse quadro foi, e ainda é, dolorosa. Mulheres tiveram que lutar, nas ruas, pelo direito de existirem como seres humanos, pelo direito de votar, pelo direito de escolher seus maridos, pelo direito de uma identidade feminina que não as inferiorizasse, pelo direito de trabalhar, pelo direito de se divorciarem, pelo direito de criar seus filhos, ou de não ter filhos.

E essas lutas, há algum tempo, se sobrepõem a outras lutas, pois não é apenas a mulher que a sociedade Moderna tratou de apagar. Existem graus diferentes de invisibilização, graus diferentes de opressão e violência social com grupos diferentes. Mulheres negras, mulheres lésbicas, mulheres transexuais, mulheres pobres. Todas essas lutas vêm juntas, sobrepostas, interpostas, simultâneas e até mesmo confusas, quando falamos do movimento feminista atual.

O que sabemos é que não queremos retornar às sombras. Agora que estamos conquistando nosso lugar ao sol, não vamos aceitar retrocesso.

E temos hoje, no país, um candidato que conseguiu despertar a rejeição dos grupos minoritários porque desenvolveu, durante sua campanha, um discurso de exclusão. O projeto político desse candidato afirma que mulheres devem ganhar menos que homens. Desconsidera a natureza da violência sexual contra mulheres. Propõe alternativas para a “segurança pública” que sugerem um potencial agravamento da violência contra minorias (não dá para ser ingênuo e achar que armamento civil vai ajudar mulheres e gays a se defenderem, por exemplo). Discursa inferiorizando mulheres, negros, pessoas da comunidade LGBTQIA+, indígenas, quilombolas. Defende o militarismo e o fim do processo democrático, que, paradoxalmente, é o que lhe dá direito de falar tudo isso sem ser jogado em um calabouço e torturado.

Esse candidato é homem branco cisgênero, com um discurso conservador que, no fundo, é racista, misógino, machista e homofóbico. Esse discurso é, como já pudemos entender bem, seu projeto político. Colocou um militar para ser seu vice, homem que defende o fim da Constituição (essa que reconheceu a mulher como sujeito de direitos) para que outra seja formada por “homens notáveis”. Ou seja, o plano de governo do candidato nos conduz à inevitável conclusão de que ele não atuará em prol dos direitos das mulheres, ao contrário, os fará regredir.

Então, mulheres decidiram reagir. Assim como nos EUA, depois da eleição de Trump, mulheres foram para a rua aos milhões, iniciando o Women’s March, que segue até hoje atuando para combater as políticas de exclusão do governo estadunidense, no Brasil, as mulheres se uniram, também nas redes, contra o fascismo – ou, mais especificamente, contra o candidato de discurso fascista.

Fundaram um grupo de Facebook que, em poucos dias, já contava com mais de um milhão de membras. Tomei parte dele logo em sua criação, e o grupo tinha 200 mil mulheres. Em dois dias, passou de um milhão. Chegou a dois milhões e quatrocentos mil mulheres, mas obviamente não o fez sem sofrimento.

Homens se infiltravam no grupo para defender o candidato fascista. Mulheres, que declaram voto para ele, faziam o mesmo. As fake news começaram a aparecer, uma mais mirabolante que a outra: que o grupo era exclusivamente formado por robôs (como se o candidato não fosse o especialista em usar robôs em sua campanha), que o grupo tinha sido manipulado, usurpando outro grupo, mais antigo e com muitos seguidores, tendo seu nome alterado. Essa última foi factualmente refutada pela grande mídia, inclusive, já que as datas de criação dos dois citados grupos não coincidiam, e o grupo de mulheres era realmente recente.

De repente, as redes sociais foram inundadas pela hashtag #EleNão e #EleNunca. Mulheres tomaram o discurso, ocuparam os espaços públicos, principalmente virtuais, e passaram a dar seu recado. Os fãs do político decidiram, tonteados por não conseguir combater o tsunami, apelar para a violência, que é o que homens fazem quando querem calar mulheres: hackearam o grupo, mudaram imagens, nome, baniram moderadoras, infiltraram fãs. Em poucas horas, um projeto magnânimo de duas semanas foi violentado, abusado, estuprado pelos seguidores do candidato.

Não podemos achar que isso foi “apenas” um ataque virtual desesperado. Isso é a mostra do projeto político do candidato em ação. Outros grupos contra esse candidato estão no ar há mais tempo, com seus membros, sem que tenham sido ameaçados ou agredidos, sem que seus criadores tivessem suas identidades expostas, com dados pessoais vazados. O grupo alvo foi o grupo das mulheres, o grupo feminino, o grupo que precisa voltar para o seu lugar. Não nos enganemos: essa é uma mostra do que um plano de governo de exclusão, silenciamento e invisibilização pode fazer. O recado foi dado: vocês, mulheres, resignem à sua insignificância, pois nós não vamos tolerar sua insubordinação, vamos calá-las com a violência.

O hackeamento do grupo foi a materialização desse projeto machista. Mas o nosso voto, esse não pode ser hackeado. Mulheres não aceitarão voltar para a clausura nem serão silenciadas. Ouvimos os ventos da mudança?

6 comments on “O silenciamento das mulheres”

    • karina heid rocha
    • 16 de setembro de 2018
    Responder

    Sim, ouvimos. E vc arrasou nesse post.

      • Tatiana Mareto Silva
      • 16 de setembro de 2018
      Responder

      Linda! Arrasamos com esse movimento, vamos continuar adiante!

    • Marcelo Etcheverria
    • 16 de setembro de 2018
    Responder

    Brilhante o teu texto! Parabéns!!!!

      • Tatiana Mareto Silva
      • 16 de setembro de 2018
      Responder

      Obrigada! Temos que manter nossa voz.

    • Leticia
    • 16 de setembro de 2018
    Responder

    Lindo. Lindo. Nao vao conseguur nos calar.

      • Tatiana Mareto Silva
      • 16 de setembro de 2018
      Responder

      Não vão, mesmo! #EleNão vai nos silenciar, nem ninguém, mais!

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