O discípulo supera o mestre

Um dia, um professor me disse que não “ensinava tudo na aula” porque não queria que os alunos dele “tomassem seus clientes”. Entendi que ele não compartilhava todo o seu conhecimento conosco porque não queria uma concorrência “tão boa quanto ele”.

Isso me marcou. Ainda era jovem e minha aventura na docência era restrita ao ensino de idiomas estrangeiros, e não parecia um problema que meus alunos e minhas alunas falassem italiano ou inglês melhor do que eu. Mas o meu professor quis dizer, naquela frase, naquele instante, que ele esperava ser sempre “melhor” que seu aluno e sua aluna. Os advogados e advogadas que o tivessem como professor seriam sempre “não tão bons” quanto ele. E eu não soube o que pensar.

Minha experiência docente posterior me fez voltar a refletir sobre esse professor – e essa frase específica dita por ele – várias vezes. Lecionei para crianças e adolescentes do ensino fundamental, lecionei para adultos, estudei sobre práticas pedagógicas, capacitei-me, tornei-me, então, o Mestre que meu professor não era – porque eu tinha o título, ele não.

A questão não era se eu seria melhor do que ele. Era se eu deveria desenvolver minha docência para que meus alunos e minhas alunas fossem, um dia, melhores do que eu. Se eu planejaria e prepararia aulas com a intenção que meus alunos e minhas alunas me superassem. Não sei bem se posso ou devo considerar essas gradações de melhor ou pior na sala de aula, porque cada aluno e cada aluna têm objetivos diferentes e vai desenvolver-se intelectual e profissionalmente de forma diferente. Mas a verdade é que eu nunca me importei se, um dia, cruzasse com um aluno ou uma aluna nos corredores de um fórum e ele ou ela tivessem me superado.

Não era assim que eu planejava minhas aulas. “Como posso ensinar o suficiente para que não seja tanto a ponto dos meus alunos e minhas alunas serem melhores do que eu” nunca fez parte da minha proposta pedagógica. Sempre busquei me doar integralmente às aulas e a meus alunos e alunas, buscando as melhores práticas que permitissem que eles e elas pudessem, junto comigo, construir conhecimento jurídico. Estudei não apenas o Direito, mas a pedagogia, e tentei ler os ensinamentos dos melhores nomes que me indicaram nas palestras e reuniões, descobrindo que esses pedagogos e essas pedagogas não tinham qualquer dificuldade em compartilhar tudo que eles e elas sabiam comigo.

Ontem, meu Reitor nos perguntou, em um momento de reflexão, qual era nosso legado. Estávamos no workshop de formação docente, que sempre acontece no início dos semestres. Ao meu lado direito, sentava uma ex-aluna, hoje colega professora. Ao meu lado esquerdo, sentava um ex-aluno, hoje colega professor. Lembrei-me novamente do meu professor. Como ele se sentiria, vendo seus ex-alunos e ex-alunas dividindo o espaço docente com ele? Será que estaria intimidado ou acreditando que não eram tão competentes quanto ele?

Eu estava realizada, absolutamente feliz de compartilhar aquele workshop com meus ex-alunos, e saber que estavam ali porque eram competentes e dedicados. Ainda não sei se é realmente importante pensar em discípulos superando os mestres no ensino superior contemporâneo, se isso deve realmente povoar o imaginário do professor e da professora. Mas, se me perguntarem hoje, eu espero sim, que todos os meus alunos e minhas alunas me superem. Que sejam muito melhores do que eu. Esse é meu legado.

A cola

Os alunos estão cada vez mais criativos para colar. Ou eles sempre foram criativos ao extremo, e foram adaptando as formas de colar cada vez que uma ficava manjada pelos professores. Posso dizer que cola é uma epidemia – não se trata de um aluno, são todos eles em um movimento que poucos se recusam a aderir.

Não sei como lidar com a cola. Não era uma aluna que colava, mas também não afirmo que nunca passei cola nem debati uma questão qualquer da prova com meus colegas de sala. Hoje, professora do ensino superior, a cola está presente no meu dia-a-dia. Tento enfrentá-la com chantagem emocional – apelo para o sentimento de justiça dos alunos, digo que “lá fora” eles não poderão colar, e que a cola separa os que vencerão dos que fracassarão.

Pura balela.

A verdade é que a cola me sugere uma forma de rebeldia. Ela me faz refletir sobre todo o sistema e me faz pensar não “como impedir a cola” e sim “por que os alunos colam, afinal”. Sim, por que eles colam? Por que existe um motim em sala de aula para que os alunos subvertam o sistema e levem as respostas para a prova, ou, ao menos, as matérias que eles deveriam ter estudado? Por que eles simplesmente não estudam?

Talvez eles estudem. É bem provável que estudem, pois não devem estudar o que eu acho que deveriam estudar ou o que o programa os obriga a estudar. É bem possível que o problema esteja no sistema, não nos alunos. Aliás, é o que faz mais sentido. Se todos colam – ou a maioria, preciso considerar que a culpa é minha, que tem algo errado acontecendo com o método avaliativo que impulsiona os alunos a burlarem as regras.

Tenho lido bastante sobre avaliação. A obra de Jussara Hoffman é inspiradora – ela me faz constatar que existe, sim, algo errado, mas que, apesar de sabermos disso, preferimos seguir com o fluxo. Descobri que, mesmo nunca tendo concordado com o sistema avaliativo classificatório, eu nunca fiz nada para mudá-lo – nem mesmo considerei fazer algo. Sempre me deixei levar pelas justificativas: o aluno prefere assim, o aluno não entende de outra forma, a sociedade exige, a culpa é dos concursos públicos! Na verdade, a culpa é mais minha, mesmo.

Continuo sem saber como lidar com a cola, com a grande certeza que a melhor forma ainda não é tentando impedir que o aluno cole, mas avaliando de forma que a cola não seja mais possível ou necessária.