Bela, recatada, do lar e do Século XXI

A Veja, sempre ela, publicou matéria realizada com a futura-quem-sabe-pode-ser primeira-dama, esposa de Michel Temer, cujo nome eu desconhecia até então. Aliás, nem sabia que ele era casado. Não que a vida pessoal daquele que me representa não seja importante, mas, a verdade é que Michel Temer não me representa em nada.

Bem, a matéria é um festival de futilidades do início ao fim. Fala sobre Marcela Temer e suas qualidades, não sei bem com que objetivo. Retrata uma mulher à sombra de alguém, e utiliza adjetivos que deveriam servir para qualificar uma mulher no Século XIX, não no XXI. Alguns defendem a matéria, dizendo que não tem problema algum ser bela, recatada e do lar, outros dizem que se trata da tentativa de impor um padrão conservador às mulheres. Bem, é.

Bela não deveria ser adjetivo fácil. Belas somos todas nós. A beleza física é tão subjetiva que deveria ser deixada como elogio de segundo plano. Claro que, provavelmente, toda mulher quer se sentir bela. Quer ser bela. Mas todas são. Beleza não pode ser um padrão definido. Olhando Marcela Temer, branca, loira e magra, eu vejo aí um padrão que a indústria da beleza já impôs faz bastante tempo e que leva centenas de mulheres à morte todos os anos. Esse padrão que obriga mulheres lindas a se mutilarem com cirurgias plásticas desnecessárias, a perderem a saúde com tratamentos milagrosos de beleza, a morrerem de anorexia e bulimia. Então, por que fazer questão de categorizar Marcela Temer como bela se, no final, somos todos belos e belas em nossas particularidades?

Recatada, por favor, nem é uma qualidade a se enaltecer. Se temos recatada simplesmente como timidez ou quietude, isso nem sempre é bom porque impede as pessoas de uma socialização plena. Como somos animais sociais, os tímidos são os que mais sofrem pela falta de inserção nos ambientes e pelas dificuldades de relacionamento. Se temos recatada como sinônimo de pudor ou pureza, isso é definitivamente coisa do século retrasado. Relevar a pureza de uma mulher é reforçar padrões conservadores que sugerem que mulheres não podem se expor, não podem aparecer, não podem protagonizar, não podem fazer sexo, não podem ter prazer, não podem ser vadias. Não é exagero nem paranóia, são séculos de opressão que ensinaram às mulheres o que é recato.

Toda mulher passou a vida ouvindo que precisa se comportar. Que tem que se dar ao respeito. Que precisa usar roupas adequadas (isso existe?). Que não pode se expor demais. Que tem que ser submissa ao homem. Que, se um homem a canta, é elogio, mesmo quando ela não está a fim. Que, se um homem a assedia, é porque ela está provocando. Que mulher “de verdade” cuida da casa, do marido, dos filhos. Esse é o recato que as mulheres sabem bem o que é.  E apenas quem é mulher o entende dessa forma. Algumas não percebem, tão doutrinadas estão para acreditar que recato é característica de uma mulher “de verdade”. As outras são apenas vadias.

Dói também ver uma revista tão lida sugerir que “do lar” seja uma coisa muito legal para as mulheres hoje em dia, quando tentamos nos firmar em um mercado de trabalho machista e que exclui as mulheres porque elas engravidam, têm TPM, são “mais fracas”, entre outras desculpas do tipo. Chega dar pena ler que Marcela Temer é uma vice-primeira-dama (nem sabia que isso existia…) que resume seus dias em buscar o filho na escola e ir à dermatologista, porque a superficialidade da matéria sugere exatamente isso. A forma como o “do lar” é colocada induz a uma percepção de que Marcela Temer é uma fútil madame rica que passa o tempo fazendo nada. Não sabemos das empregadas que ela deve ter e do que ela realmente faz, mas “do lar” ela, efetivamente, não é.

Sabe quem é mulher do lar? Aquela guerreira que acorda cedo, arruma filho, faz o café, leva filho na escola, arruma a casa, faz o almoço, pega o filho, lava a louça, cuida do filho, cuida dos cachorros/gatos/periquitos, arruma mais a casa, lava a roupa, passa a roupa, faz o dever com o filho, lava a garagem, vai ao supermercado, faz o lanche, lava mais louça, faz o jantar, recebe o marido com um beijo e com a mesa pronta, arruma a cozinha, dá banho no filho, arruma a cama, e só vai dormir depois que todo mundo foi. Essa mulher que é tão Século XIX mas que, ainda nos dias atuais, está em todos os lugares. Alguém que escolheu (?) ser do lar, ou que não teve outra opção, mas que batalha uma jornada incansável de um trabalho que não é reconhecido por quase ninguém – nem mesmo pela própria família da qual ela cuida.

Marcela Temer é essa mulher? Não pareceu. O que a matéria evidenciou, propositalmente ou não, foi: ela é uma madame, que nada faz, não trabalha e não produz, e usa o tempo que tem para… nada. Para futilidades. Para planejar viagens. Para ir ao salão de beleza – afinal, ela tem que ser bela! Papel da mulher no mundo conservador é esse, estar em casa e enfeitar ao lado do marido quando ele precisa de enfeite. Esse estereótipo não ajuda em nada a luta travada por mulheres empoderadas que buscam seu lugar no mercado de trabalho, que buscam reconhecimento de seus protagonismos na vida. Mulher não tem que viver à sombra de um homem. Mulher não é a esposa ou a mãe. Mulher é ela mesma. É sujeito, não predicado.

A matéria sugere que boas mulheres são assim. Belas, recatadas, do lar. Isso significa que existem as feias, as vadias, as do mundo. Isso significa que as feias, as vadias, as que vão para a rua, não são boas mulheres. Isso significa jogar no lixo décadas de luta feminista e a batalha diária pelo reconhecimento do papel feminino na sociedade.

Então, desculpem os homens, mas a matéria é machista, sim. Vocês não sabem o que significa ter que lidar com esses rótulos a vida inteira, então cuidado ao se manifestar sobre assuntos que vocês desconhecem. E para as mulheres que defendem a matéria, eu sinto muito. Lamento que vocês sejam tão doutrinadas a serem “belas, recatadas e do lar” que não consigam enxergar o machismo nosso de cada dia. Espero que vocês sejam felizes em suas escolhas, porque nós, as feministas mimizentas que reclamam de tudo, vamos continuar lutando para que vocês tenham direitos e sejam respeitadas como mulheres que são.

PS: Marcela Temer gosta de vestidos até os joelhos. Eu gosto de decote, alcinha, short, legging e transparência. Parece que sou vadia!

PS2: Eu abuso do sarcasmo e da ironia nos meus textos. Se você não entendeu, leia novamente. Não me leve tão a sério, porque eu vou ironizar tudo que considerar merecedor da minha ironia.

Celebrar o que?

Publicado originalmente no dia 08 de março de 2016.

Preliminarmente, relembro que posto aqui minha opinião. Esse blog não tem objetivo de fazer ciência. Nem sempre deposito fidelidade científica ao que publico aqui. Tento apenas escrever sobre o que sei, nunca sobre o que não sei. Mas então…

Nenhuma luta deve ser desmerecida. Nem mesmo quando ela parece desnecessária. O feminismo vive um momento de alta e baixa, quase que ao mesmo tempo, porque é moda ser feminista, sem nem saber do que se trata o movimento, e criticar o feminismo, também sem saber do que se trata o movimento.

A luta feminista não é criação de mulheres que querem ser melhor que os homens. Nenhuma feminista quer ser melhor do que ninguém, quer apenas poder gozar dos mesmos direitos. Quer ser sujeito no processo, não objeto. Ver homens reproduzindo discursos e atitudes machistas hoje, em pelo Século XXI, é lamentável. Ver mulheres fazendo a mesma coisa é demonstração que o feminismo ainda tem muito caminho para percorrer.

Há uns 80 anos, as mulheres não votavam no Brasil. Sim, elas não eram cidadãs, pois não participavam do processo democrático (eram objetos, não sujeitos) e não gozavam dos direitos de cidadania. O voto não era proibido expressamente, mas não era autorizado expressamente, o que sugeria o desinteresse legislativo para com a participação feminina na escolha dos representantes do Estado.

No Código Civil de 1916, a mulher era obrigada a adotar o sobrenome do marido. Ela também não podia sequer litigar livremente em juízo sem autorização do marido, o que apenas em 1962 foi suprimido por lei nova. Ela também não podia trabalhar sem autorização do marido. Como bem esclarece Maria Berenice Dias [1], o casamento tirava da mulher a plena capacidade civil. Escolher não se casar também não era uma opção, pois mulher que não casa é puta ou encalhada.

Não pensem que isso tem muito tempo. Um século não é muito tempo em um mundo que conta com 2016 anos depois da vinda de Cristo, e muitos outros séculos antes do messias. Ainda hoje, a mulher é objeto em muitas sociedades. Alguns dizem que é uma questão cultural. Mas a pergunta feita por meu muito perspicaz professor Dr. Alexandre Coura é: se a mulher for sujeito nessa sociedade, ela aceitará determinadas imposições que lhe são feitas? Para saber se a questão é cultural ou não, a escolha é fundamental. E não, as mulheres não têm direito de escolher se são sujeitos ou objetos. Elas são. Simples assim.

A jovem branca de classe alta que se dispõe a ir a público dizer que gosta de machismo, ou que despreza o feminismo, só pode fazer isso por causa do mesmo feminismo que ela critica. É a luta de alguns que desobjetifica muitos. A mulher não está em condições de igualdade com o homem, não importa o que diga o artigo 1º da Constituição Federal.

Ainda hoje, a mulher recebe menos que o homem no mercado de trabalho.

Ainda hoje, a mulher cuida da família enquanto o homem “ajuda”. Ou ela cuida da família sem qualquer ajuda, porque a função do homem é sustentar a casa.

Ainda hoje, as mulheres não podem vestir a roupa que querem porque “mulher precisa se dar ao respeito” e não provocar os homens. Depois são estupradas e bem feito, ficaram se exibindo.

Ainda hoje, mulheres acompanhadas de outras mulheres estão sozinhas, pois presume-se que mulher não pode andar por aí sem companhia masculina que vira presa fácil para abusadores. E bem feito, quem mandou provocar?

Ainda hoje, mulheres são obrigadas a criar os filhos sozinhas, pois a elas não é permitido abortar enquanto aos homens é permitido abandonar seus filhos. Não é permitido? Então o que acontece quando eles abandonam?

Ainda hoje, mulheres são minoria nos postos mais altos das academias, excluídas das palestras e dos espaços de poder. As exceções que lá estão não condizem com uma efetiva abertura desse campo para a mulher.

Ainda hoje, mulheres precisam saber o seu lugar e ganhar panelas, liquidificadores ou pratos no aniversário, no dia das mães, no Natal.

Ainda hoje, mulheres precisam ser lindas e sempre jovens, enquanto homens têm autorização para engordar, ficar careca, envelhecer, adoecer e ficar cansados. As mulheres não podem adoecer, pois, se adoecem, quem vai cuidar das coisas?

Ainda hoje, as mulheres morrem simplesmente por serem mulheres.

Então, não sei bem o que celebramos no dia 08 de março. Uma luta que não acabou, um movimento que não pode esmorecer, e um discurso que precisa continuar. Enquanto uma mulher passar pelo que listei acima, o feminismo é necessário, sim. Não precisamos de flores, precisamos de respeito.

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DIAS, Maria Berenice. A mulher no Código Civil. Disponível em http://www.mariaberenice.com.br/uploads/18_-_a_mulher_no_c%F3digo_civil.pdf