A banalização da Lei Maria da Penha e a desqualificação das lutas femininas

Faz algum tempo que anseio em escrever algo aqui sobre a Lei Maria da Penha, mas refreio-me por 2 motivos. A uma, meu entendimento sobre a criminalização de toda conduta e atitude humana é peculiar. Não acredito no sistema penal que está posto, pois ele não é eficiente, além de ser seletivo e discriminatório. A duas, porque não comungo do pensamento de algumas colegas feministas de que aumentar a pena de crimes cometidos contra mulheres seja eficaz para reduzi-los. Em meu entendimento, o problema da desigualdade feminina é a educação machista e patriarcal que as pessoas, em geral, recebem no ambiente familiar e até mesmo nas escolas.

Dessa forma, escrevendo sobre como o movimento Escola Sem Partido e como ele tem objetivo de obstaculizar a educação inclusiva, o que afeta diretamente a ruptura de padrões estigmatizados oriundos do patriarcado, acabei por me deparar de novo com o mesmo assunto. Ainda, com mais ênfase na utilização da Lei Maria da Penha para casais homoafetivos masculinos e para homens, considerando que a lei deveria amparar toda e qualquer violência doméstica.

Bem, a primeira coisa que se deve compreender sobre a Lei Maria da Penha é que ela não é uma lei penal. Apesar da sua discussão quase sempre se dar no âmbito do Direito Penal, entendo que isso é uma subversão da real intenção por trás da Lei 11.340/2006. Estamos diante de uma norma que, pela primeira vez, reconheceu expressamente a mulher como titular de direitos humanos, apesar da Constituição de 1988 prever a igualdade formal e a proibição de qualquer discriminação e do Brasil ser signatário de vários tratados internacionais que focam na erradicação da discriminação e violência contra as mulheres (como exemplos, podemos mencionar a própria Convenção de Viena, de 1993, e a Convenção de Belém do Pará, de 1994).

A própria lei, em seu artigo 1º, dispõe:

Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar. (sem grifos no original)

A lei também foi importante para por fim ao mito da violência física como única forma de violência doméstica, com o reconhecimento da violência psicológica, a sexual, a patrimonial e a moral. Assim, mulheres obrigadas a sexo forçado, mulheres impedidas de constituir patrimônio próprio ou que têm seu patrimônio usurpado, mulheres ofendidas diariamente, mulheres subjugadas de qualquer forma, sofrem violência doméstica se isso acontece no espaço familiar.

E, após a parte conceitual, a lei trata primeiro da assistência às mulheres em situação de violência e depois da penalização do agressor, dando clara preferência ao cuidado com a vítima. Se cumprida fosse, a Lei Maria da Penha seria especialmente relevante para coibir e prevenir a violência doméstica contra mulheres em razão das políticas previstas em seu texto. Se.

As mulheres são o objeto de proteção da lei. Podemos discorrer sobre o que é mulher, se formos adentrar no debate da identidade de gênero, mas eu, como feminista intersec que sou, não excluo mulheres transexuais. A questão é que a lei, que não é um mero adendo ao Código Penal como alguns pensam, foi elaborada com o objetivo de proteger mulheres. Não é uma lei para acabar com a violência doméstica em geral, mas para erradicar a violência contra mulheres.

Parece simples, mas todo desvio do padrão heteronormativo tende a ser reenquadrado pela sociedade patriarcal. Assim, a existência de uma lei que reconhece a mulher em uma situação de vulnerabilidade específica, cujos objetivos são o de empoderar essas mulheres e proporcionar a elas assistência para saírem da condição de submissão que estão, ameaça os padrões do patriarcado, que precisa da mulher subjugada ao homem, principalmente no ambiente familiar. O patriarcado pode até tolerar a mulher no espaço público, mas jamais insurgente no espaço privado.

Toda tentativa de banalização da Lei Maria da Penha é uma tentativa de deslegitimar a própria essência da lei. Sob argumentos falaciosos em nome de uma isonomia que não existe nem mesmo na forma, a aplicação da Lei Maria da Penha para homens não respeita a sua proposta fundamental, que é colocar em prática a Convenção de Belém do Pará.

A verdade é que homens não precisam de proteção especial do estado pois não se encontram em situação de vulnerabilidade quando sofrem violência doméstica. Homens sofrem violência doméstica, tendo suas companheiras/esposas como algozes? Sim, claro! Como bem disse Heleieth Saffioti, temos que parar de achar que mulheres só cometem crimes em reação a uma agressão. Mulheres podem ser criminosas, sim, e praticam violência doméstica, sim. Mas devemos considerar o quanto homens precisam de uma lei específica para protegê-los dessa violência, e a resposta será que nada disso é necessário, para eles.

A maior parte das mulheres morre pela mão de seus companheiros e maridos. A maior parte das jovens estupradas o é por pais, padrastos, outros familiares. A maior parte das vítimas de violência doméstica é mulher, e são raros os casos em que homens são assassinados por suas companheiras/esposas simplesmente porque elas chegaram embriagadas em casa e quiseram sexo forçado, ou porque pegaram uma mensagem suspeita no whatsapp, ou porque não aceitaram o divórcio. Esses dados estão facilmente acessíveis no Mapa da Violência de 2015.

E as mulheres, historicamente submetidas financeira e emocionalmente a seus companheiros/maridos, não possuem força ou capacidade de sair de relações abusivas. Conheço mulheres que sofreram abusos por décadas porque os familiares não admitiam que elas se divorciassem, porque não tinham dinheiro para enfrentar o mundo sozinhas com os filhos, porque acreditavam que a violência que sofriam era culpa delas mesmas.

A Lei Maria da Penha nasceu para gritar essa realidade. Para expô-la, para mostrar que o estado precisa atuar a fim de eliminar a violência doméstica contra a mulher de forma definitiva. É uma lei que conclama a atuação estatal para proporcionar às mulheres condições de sair de situações limite que as colocam em risco. Então, como podemos aplicá-la também a homens, um grupo que é voz majoritária nos espaços públicos, que é dominação nos espaços privados, que simplesmente não está vulnerável dentro das relações familiares?

Igualdade é mito. Não existe, hoje, na sociedade Brasileira, igualdade entre gêneros. Não é porque a Constituição de 1988 disse que somos iguais que a isonomia magicamente se fez entre as pessoas. Mulheres recebem piores salários 1, mulheres são presença quase inexistente na política 2, mulheres são julgadas pelo que vestem 3 e pelos parceiros sexuais que têm 4, mulheres estão inseguras apenas por serem mulheres5. A banalização que se tenta com a Lei Maria da Penha é uma forma do patriarcado se reajustar e impedir que as lutas femininas por igualdade material se concretizem.

Termino no texto com as palavras substanciais de Boaventura de Sousa Santos.

[…] temos o direito a ser iguais quando nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando nossa igualdade nos descaracteriza.

  1. Informações aqui: https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2016/12/02/salario-medio-de-mulher-e-r-490-menor-que-o-de-homem-r-1522-x-r-2012.htm e aqui: http://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/mulheres-ganham-menos-do-que-os-homens-em-todos-os-cargos-diz-pesquisa.ghtml
  2. O Brasil é um país que tem uma presença feminina na política quase insignificante, como demonstram estudos aqui http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2017-03/brasil-ocupa-115o-lugar-em-ranking-de-mulheres-na-politica e aqui http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/03/08/lugar-de-mulher-tambem-e-na-politica
  3. Informações aqui: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/para-o-brasileiro-se-a-mulher-soubesse-se-comportar-haveria-menos-estupros-2334.html
  4. Ler os comentários dessa matéria: http://wp.clicrbs.com.br/nemlolitanembalzaca/2011/10/10/mulheres-que-tiveram-muitos-parceiros-tem-mais-dificuldade-em-achar-um-marido/?topo=52,1,1,,170,e170 dá uma singela percepção do quanto mulheres ainda são qualificadas por sua vida sexual
  5. Para isso, basta dar uma busca no google. É tanta informação que não cabia em uma nota.

Querem nos calar

Direitos adquiridos e não usufruídos não parecem ter alguma utilidade para ninguém. Assim, dizer que alguém possui direitos não representa nada se tais direitos não são materialmente atingíveis. Ou seja, mulheres e homens não são iguais perante a lei simplesmente porque homens, historicamente, usufruem de direitos e benesses que são negados a mulheres. Mesmo que a lei diga o contrário.

Recentemente, o Senado Federal começou a pedir a opinião das pessoas, em redes sociais e no seu próprio site, sobre uma sugestão legislativa que objetiva transformar a falsa denúncia de estupro em crime inafiançável e hediondo – a SUG 7/2017. Não há explicações muito profundas sobre a motivação dessa pretensa norma, apenas o fato de que

O autor da sugestão justifica sua proposta argumentando que os homens que são vítimas da falsa acusação de estupro têm suas vidas arrasadas, podendo perder o emprego, ser linchados e presos injustamente.

É curioso que o Código Penal já dedique parte de seus artigos a criminalizar a falsa denúncia de crime, tratando de tipos como denunciação caluniosa (CP 339), comunicação falsa de crime ou contravenção (CP 340), auto-acusação criminosa (CP 341), falso testemunho e falsa perícia (CP 342), entre outros. Também é punível a calúnia, quando se imputa falsamente a alguém um crime, prevista no artigo 138 do Código Penal. Ou seja, a legislação criminal já é farta em tipos penais e penas várias para punir quem mente para o Estado a fim de atribuir crime inexistente a alguém.

A pena da denunciação caluniosa já é alta, contando com até 8 anos de reclusão. Se ja há punição suficiente para esse tipo de situação, considerar a falsa denúncia de estupro como crime hediondo e inafiançável trará que tipo de benefício à vítima? Aparentemente nenhum; o objetivo dessa medida é obstaculizar a denúncia de crimes contra a dignidade sexual.

É importante analisar a situação por alguns ângulos mais técnicos para uma opinião sólida sobre o tema. Em primeiro lugar, é preciso analisar se há casos suficientes de falsas denúncias de crimes sexuais que justifiquem um rigor mais expressivo da lei penal. Na realidade, há mais ou menos casos de estupros verdadeiros denunciados? Em segundo lugar, cabe verificar como lidar com a questão conceitual e probatória. O que seria determinante para se considerar uma denúncia de crime sexual como falsa? Como a prova do crime seria invertida para demonstrar o não-crime? Afinal, é possível prova de fato negativo (não-estupro)? Em terceiro lugar, quem são as maiores vítimas de crimes sexuais no Brasil e como esses crimes impactam a vida dessas pessoas? As possíveis vítimas de falsas denúncias sofrem mais do que as vítimas de crimes sexuais para justificar que o não-crime seja punido com mais rigor do que o próprio crime?

No primeiro aspecto, não é possível totalizar ou universalizar dados quanto às denúncias de estupros para se ter um parâmetro científico irrefutável ou invariável. Mudando-se de cidade ou país é possível ter alterações significativas no quantitativo de crimes sexuais denunciados – o que inclui o quanto esses crimes são repudiados pela sociedade, por exemplo. Um estudo científico elaborado com metodologia séria constatou que, em dez anos, entre 2 a 10% das denúncias foram comprovadamente falsas (de 136, apenas 8 eram falsas). Na cidade de Victoria, Austrália, um estudo realizado constatou que, de 850 casos examinados, apenas 2,1% foram falsas denúncias de crimes sexuais comprovadas. O FBI, em 1996, realizou pesquisa que confirmou um índice de 2% de falsas denúncias de crimes sexuais. Dessa forma, os índices cientificamente constatados não ultrapassaram 10% das denúncias de crimes sexuais.

O Brasil não possui estudos confiáveis ou contínuos quanto aos casos de falsas denúncias de crimes sexuais. Uma busca nos sistemas virtuais de pesquisa (Google) nos permite verificar que a maior parte das discussões sobre falsos abusos sexuais denunciados relaciona-se com a alienação parental, ou seja, os casos mais frequentes apresentam-se como casos em que pais são acusados falsamente de terem molestado sexualmente seus filhos ou suas filhas. Essa constatação é reforçada pela existência de uma Associação de Vítimas de Falsas Denúncias de Abusos Sexuais, que não contém nenhum caso de homens tendo sido falsamente acusados por mulheres fora da relação pai-mãe, apenas trata de casos de alienação parental.

Texto publicado pela APASE também sugere que eventuais falsas denúncias, no âmbito da relação entre pais e filhos, podem ocorrer por equívoco dos próprios agentes públicos,  que se utilizam de técnicas inadequadas e que, eventualmente, podem levar a má interpretação da criança ou do que dizem os pais.

Há também uma página no Facebook com o título “Eu não mereço falsa acusação de estupro” que viraliza dados referentes à falsa denúncia de estupro, que estariam no percentual de 61%. Ocorre que esses dados não são comprovados por uma metodologia científica, partem do ideário de Varas de Família de algumas regiões do Brasil. Assim, não são dados referentes a mulheres falsamente estupradas, mas casos de alienação parental ou similares. Afinal, qualquer pessoa sabe que estupro não se denuncia na Vara de Família, certo?

Como a página tem um discurso abertamente machista e misógino, não pode ser considerada válida para uma análise metodológica. Alguns casos apresentados não são nacionais, outros referem-se a acusações de abuso de vulnerável e outros ainda referem-se a pessoas que foram confundidas com agressores sexuais e espancadas e/ou mortas. Em verdade, a página revela mais sobre o nefasto efeito do justiçamento de vingança que tanto se propaga na sociedade do que sobre o efeito real de falsas declarações de estupro.  Desde 2014, a página só conseguiu compartilhar 20 notícias que relatam falsas denúncias de crimes sexuais, sendo que, dessas, parte não é brasileira.

Assim, não é possível determinar, no Brasil, um percentual cientificamente apurado sobre a quantidade de falsas denúncias de abusos sexuais, bem como é difícil determinar efetivamente quantos casos de abusos sexuais nunca sequer chegam a ser denunciados. A ausência de dados empíricos fragiliza uma proposta normativa de agravamento de pena para falsas denúncias de estupro haja vista não parecer necessária dita alteração. Já existe tipo penal, por que vamos agravá-lo?

Quanto ao segundo aspecto, o probatório, temos que a dificuldade em se provar o próprio crime sexual já sugere um alerta maior quanto à criminalização agressiva de falsas acusações. Podemos esperar que apenas denúncias comprovadamente falsas representem punição para seus autores, mas sabemos que, no mundo, pessoas são indevidamente presas e permanecem presas ilegalmente todos os dias. Existem projetos desenvolvidos para identificar e libertar pessoas inocentes do sistema carcerário, como o Innocence Project, dos Estados Unidos, e o RED Inocente, que atua na América Latina. Este ano de 2017, o Innocence Project Brasil iniciará uma investigação sobre os presos ilegais e inocentes no Brasil, o que levantará dados mais precisos.

A dificuldade probatória do crime sexual reside na peculiaridade do crime. Nem todo estupro deixa marcas físicas – sempre é estupro quando o sexo é não consentido, mesmo que não haja violência física. As vítimas de crimes sexuais tendem a demorar para denunciá-los, por vergonha, medo ou por acreditar que os criminosos não serão punidos, e isso pode fazer com que provas materiais tenham se perdido pelo decurso de tempo. Em se tratando de estupro propriamente dito, o sexo violento não consentido pode ser confundido, materialmente, com o sexo violento consentido. Ou seja, não é fácil provar que o crime sexual aconteceu, mesmo quando ele realmente aconteceu. Como provar, então, que ele não aconteceu?

A ausência de provas materiais do crime pode levar à confirmação absoluta de que o crime não ocorreu? O que seriam as provas materiais de um estupro? Se o exame de corpo de delito não constatar, imediatamente, violência sexual, o crime de estupro estará excluído? A verdade é que a prova do não-crime é ainda mais difícil do que a prova do crime, pois o fato negativo (a ausência de) se mostra capcioso no âmbito probatório – é chamada prova diabólica. Como vamos provar que uma denúncia é falsa, apenas pelo fato de eventualmente não se conseguir demonstrar materialmente inexoravelmente o estupro?

É no terceiro aspecto que a sugestão legislativa se mostra, afinal. As maiores vítimas de crimes sexuais são crianças e mulheres. Crianças e adolescentes sofrem horríveis abusos, geralmente por pessoas próximas, por familiares, por seus pais e mães, e mulheres, que são quotidianamente vítimas de estupro. Homens raramente se colocam como vítimas de crimes sexuais. Mas crianças e adolescentes podem denunciar falsamente? Podem ser autores de falsas denúncias de crimes sexuais, poderiam ser penalizadas nesse aspecto? Não. A sugestão legislativa claramente atinge mulheres que denunciam estupros, ou seja, é uma proposta de lei para calar as mulheres.

Em 2014, o Brasil registrou 1 estupro a cada 11 minutos. Foram pelo menos 47.646 estupros no ano. Em 2013, a Pesquisa Nacional de Vitimização constatou que apenas 7,5% das vítimas de estupro noticiam o crime. Em 2015, apenas 6% dos estupros noticiados foi a julgamento, ou seja, apenas 6% dos homens denunciados por estupro enfrentou uma persecução penal. Curiosamente, a Agência Brasil noticiou uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que, em 2016, identificou que 33% da população brasileira culpabiliza a vítima pelo estupro sofrido. Um terço das pessoas acha que a mulher estuprada é responsável pela violência sexual sofrida. Quase metade dos entrevistados homens acredita que a mulher “que se dá ao respeito” não sofre estupro.

A situação do estupro no Brasil é delicada. O próprio Senado Federal, que se propôs a fazer a pesquisa ora comentada, já publicou nota técnica, em 2014, sobre dados do crime de estupro no Brasil – na verdade, sobre a ausência de dados estatísticos sérios.

No Brasil não foram aplicadas entrevistas em pesquisas especializadas no tema de violência sexual no âmbito nacional, que, por sua natureza e os tabus envolvidos, necessitam de uma metodologia cuidadosa, a fim de que os entrevistados possam reportar verdadeiramente as informações.

No entanto, pesquisa realizada pelo IPEA em 2013 constatou que apenas 10% dos estupros no Brasil são denunciados.

A partir das respostas, estimou-se que a cada ano no Brasil 0,26% da população sofre violência sexual, o que indica que haja anualmente 527 mil tentativas ou casos de estupros consumados no país, dos quais 10% são reportados à polícia.

Considerando o baixíssimo índice de denúncias de estupros feitas por mulheres (entre 7,5 e 10%) e considerando que, desse pequeno percentual, nem 10% dos agressores sofre ação penal, os números falam por si. Podemos fazer uma conta matemática simples, utilizando os dados já coletados no Brasil: De cada 1000 estupros, apenas 100 são denunciados (900 sequer são reportados à autoridade policial) e, desses 100 noticiados, apenas 10 sofrem ação penal. De 1000 estupros, apenas 10 agressores chegam a ser punidos.

Em um pequeno universo de estupros denunciados e efetivamente processados e julgados, alguns podem ser falsas denúncias, mas os dados significativos abrangem apenas aqueles relacionados à alienação parental, não aqueles em que mulheres são vítimas. A própria página Não Mereço Falsa Acusação de Estupro compartilha uma matéria de São Paulo em que uma delegada afirma que, de 100 denúncias de estupro, 10 apontam agressores desconhecidos e, dessas 10, 5 são falsas. De 100 denúncias, 95 são verdadeiras. Esse é o número que precisa importar.

Ainda, se os agressores são desconhecidos, não se sabe quem são e, por consequência, ninguém sofre qualquer retaliação pela falsa denúncia. Pelo que se observa, nenhuma denúncia cujo agressor era conhecido pela vítima foi apurada como falsa.

O encobrimento dos dados (inclusive da falta deles) serve para ocultar os objetivos de uma sugestão legislativa que tem como propósito calar as mulheres e dificultar ao máximo as denúncias de estupro. A reprimenda à falsa denúncia de crime já sofre punição suficientemente rigorosa pelo Código Penal Brasileiro. Utilizar adjetivos como “hediondo” e “inafiançável”, cujo efeito é flagrantemente midiático, afastará sobremaneira as mulheres da autoridade policial, pois aquelas que demoraram para denunciar ou não sofreram estupros violentos temerão denunciar seus agressores por medo de serem consideradas (ainda mais) criminosas.

Em um país que tolera estupros e criminaliza a conduta da vítima, que parece importar mais do que a do próprio agressor, qualquer obstáculo à denúncia de crimes sexuais deve ser vista como uma forma de violar direitos fundamentais das vítimas.

É mais assustador ainda quando se considera que a falsa denúncia já pode ter uma pena superior ao próprio crime de estupro:

Art. 213.  Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso:

Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.

Art. 339. Dar causa à instauração de investigação policial, de processo judicial, instauração de investigação administrativa, inquérito civil ou ação de improbidade administrativa contra alguém, imputando-lhe crime de que o sabe inocente:

Pena – reclusão, de dois a oito anos, e multa.

Ou seja, se hoje a falsa denúncia já é punida com reclusão e se a pena pode, inclusive, ser maior do que a do crime falsamente denunciado, a adjetivação da conduta não pode ter outros motivos que não disseminar medo e constranger ainda mais as mulheres a deixar de denunciar crimes sexuais.

 Não sejamos ingênuas. Continuam querendo nos calar. Pensem em quem ganha com isso.

Uma réplica a um discurso machista

Inicio essa publicação informando que meu texto de hoje é uma réplica a um texto escrito por Luis Felipe Pondé, publicado no dia de hoje (23.01.17) na Folha. Lembro-me que sempre me incomodou o fato da academia brasileira ser tão sensível, de ninguém criticar ninguém abertamente, de não se provocar o debate científico. Em meus estudos utilizando pensadores norte-americanos, sempre que um artigo me atraía ele acaba sendo a réplica a outro artigo, e com isso eu via o conhecimento científico sendo produzido. Ciência social não se faz placidamente, mas com muito debate e argumentação.

Pois Pondé, que possui um currículo acadêmico irrepreensível, escreveu, sem qualquer aparente motivo científico, um texto machista e com tantos argumentos equivocados que merece uma réplica. Afinal, frente esse tipo de texto, temos apenas duas opções: calar-nos ou debater. Como eu nunca me calo, decidi colocar aqui a minha pequeníssima contribuição para a discussão.

Preliminarmente, informo que não gosto de dar mídia a esse tipo de texto, mas que é impossível admitir um debate honesto sem que ele seja lido por quem desejar. Portanto, se você, leitor, ainda não teve contato com o texto que estou replicando hoje, pode clicar aqui para ler.

Resumidamente, o articulista argumenta que a emancipação feminina, como desejada pelos movimentos feministas, levará à extinção da raça humana. Ele explica que os homens, para “dar conta” das mulheres contemporâneas, terá que se tornar inteligente, e, com isso, vai perder o interesse nas mulheres, que terão que se esforçar muito para se tornarem interessantes para qualquer homem. Com isso, haverá menos casais heterossexuais, as mulheres serão obrigadas a procurar relacionamentos homossexuais, haverá menos filhos e, com isso, logo a raça humana estará extinta.

Bem, essas são minhas palavras, mas o texto dele disse exatamente isso. Demorei algum tempo para ler tudo pois, a cada parágrafo, eu duvidava que alguém da categoria acadêmica de Pondé tivesse escrito algo tão estilo teorias da conspiração machista como isso. Mas o texto está lá, assinado por ele, então preciso presumir que seja verídico. E, também, lembrei-me que erudição não livra ninguém das garras do patriarcado.

O articulista demonstra desconhecimento da luta feminista ao dizer que o homem vai se libertar e não vai mais querer saber das mulheres. Faço aqui um grande parêntese para situar o leitor: o feminismo é um movimento de mulheres, mas a libertação da mulher terá como consequência a libertação do homem. O patriarcado é um sistema complexo de opressão e as mulheres podem ser as maiores vítimas, porém não as únicas. As relações classe-sexo-raça estão imbricadas, homens jovens e crianças também sofrem dominação, assim como a situação de mulheres negras é mais grave do que a de mulheres brancas, apenas como exemplo.

Claro que o homem vai se libertar, isso decorre da libertação feminina e é esperado pelo movimento feminista. A ruptura do sistema patriarcal levará ao desmoronamento da heteronormatividade e seus estereótipos estigmatizantes, o que levará, obrigatoriamente, a uma reconfiguração das relações de sexo e gênero. O movimento feminista anseia por esse homem que respeitará a mulher, que não mais a enxergará como objeto sexual, que não mais terá o casamento como um contrato sexual “de adesão” em que a mulher serve apenas para cuidar da família e reproduzir.

Já disse antes em outro texto, mas não custa repetir: não é possível repensar o sistema e romper com o patriarcado sem repensar as relações familiares. O sistema familiar (patriarcal) de reprodução social é opressor e coloca mulheres em posição de objeto. A mulher é posse, é reprodutora de herdeiros e mão de obra gratuita, é um ser não pensante e não capaz de realizar outras tarefas que não as domésticas. A ideia de que mulheres anseiam naturalmente ser donas de casa e mães é inculcação do patriarcado, e a ideia de que mulheres precisam de homens para sobreviver também é. As relações familiares patriarcais são injustas em uma perspectiva de gênero e colocam as mulheres sempre em posição de submissão, sem escolha, sem liberdade para tomar as próprias decisões, dependentes de maridos e companheiros, incapazes de cuidar de si mesmas.

Então, tenho que acreditar que o movimento feminista antecipa essa mudança. As feministas escrevem isso em seus livros há anos! O feminismo espera ansioso o dia em que o patriarcado vai ruir e permitir que homens e mulheres, livres e iguais, reconfigurem suas relações e as tornem contratos bilaterais.

E, independente do que já foi dito antes, os homens são livres. Mesmo que, em um nível mais elevado de discussão, tragamos a heternormatividade como uma forma de opressão até mesmo masculina, os homens são criados para dominar e serem livres. Os meninos são criados para assumir funções masculinas, que incluem mandar, chefiar, pensar. Sim, pensar. As mulheres não são criadas para pensar, historicamente nunca foram. Os papeis que o patriarcado espera de homens e mulheres começam a ser desenhados na infância e os meninos desde sempre sabem que possuem sua liberdade. Homens são livres para trabalhar no que quiserem, para vestir o que quiserem, para fazer sexo como quiserem, para comandar sem ser comandados.

A liberdade dos homens é um fato histórico. A liberdade das mulheres é objeto de uma luta secular. Esses homens livres são os que oprimem e objetificam as mulheres, a eles submissas.

O articulista também sugere que os homens poderão ficar “frouxos”, indecisos sobre sua masculinidade, inseguros e incapazes de tomar decisões. Esse discurso, somado ao fato dele dizer que homens “inteligentes” não vão mais querer saber das mulheres, sugere que 1) homens heterossexuais são burros e homens homossexuais ou assexuados são inteligentes e 2) homens, ao deixar de dominar as mulheres e tratá-las como escravas sexuais, perderão a sua identidade.

Sem adentar muito no mérito, esse discurso não é apenas machista, ele é heteronormativo. Ele se sustenta no “homem de verdade é macho, bruto, truculento, grosseiro, ignorante, dominador”. Senso comum do patriarcado. Esse não é o único texto do filósofo que sugere esse estereótipo do homem vigoroso, robusto, corajoso, forte, o que me faz perceber que ele acredita nessa concepção de que o homem precisa desses atributos para ser alguém, independente de quantos ele prejudique ou oprima no processo.

Esse padrão heteronormativo é agressivo, traça exigências rigorosas para homens e mulheres seguirem, caso contrário não serão homens e mulheres “de verdade”. O feminismo é um movimento que busca a ruptura com esse padrão, que busca uma reconfiguração das relações entre gêneros que levará ao desmoronamento da heteronormatividade, que não tem como se sustentar fora de um sistema como o patriarcal. E o texto do articulista, alinhado com o padrão heternormativo de homem, também parece ignorar isso – que o feminismo luta para romper com esse estigma.

Ainda, o patriarcado sustenta exatamente que os homens são inteligentes, as mulheres não. As mulheres são naturalmente menos capazes que os homens em praticamente tudo, com exceção das atividades domésticas, pois elas são exclusividade feminina. Os homens são poderosos e donos do mundo. Então, não entendo o articulista sugerir que o feminismo vai fazer os homens mais inteligentes nem a conexão disso com o interesse sexual. Não é ironia, não entendo, mesmo. O que vejo nesse argumento (ou falta dele) é que o autor do texto não sabe exatamente nada sobre o movimento que ele tenta deslegitimar.

Para completar, o articulista finaliza o texto com uma frase impactante: as mulheres livres querem respeito, homens livres querem doçura. Essa simples afirmação é suficiente para sustentar toda a opressão do patriarcado sobre as mulheres e deslegitimar décadas de luta por igualdade e liberdade. E foi o que o articulista fez.

Ao sugerir que as mulheres estão muito agressivas e que os homens desejarão mulheres mais suaves, mais dóceis, mais gentis, ele retoma todo o arquétipo da mulher histórica do patriarcado. A mulher é feminina, é delicada, é gentil, é generosa – esse estereótipo vem acompanhando o gênero feminino há muito tempo e precisa ser desconstruído. Demolido. Assim como homens são viris, brutos, fortes, inabaláveis, dominadores, ogros – esse é outro padrão combatido à exaustão pelo feminismo, pelo qual o articulista demonstra um certo fetiche. Pessoas não nascem com essas características, que são históricas e culturais, não biológicas. Esses papeis só servem para provocar e legitimar desigualdade de tratamento entre homens e mulheres, o que não tem nenhuma base natural, apenas sociocultural.

Mulheres não são naturalmente delicadas, mães, gentis, “femininas”. Aliás, o padrão feminino não precede ao nascimento, nem poderia. “Feminino” é qualidade atribuída à pessoa depois que ela nasce, de acordo com padrões sociais e culturais desejados. Mulheres não são naturalmente burras ou menos inteligentes ou capazes que homens – mulheres deixaram de ter a oportunidade de ser educadas e foram impedidas de assumir tarefas criativas durante décadas. Mulheres não nascem ansiando por homens nem pelo casamento nem pela maternidade, não há uma relação intrínseca entre a felicidade da mulher e “encontrar um homem que as satisfaça”. Tudo isso é inculcado em meninas desde que elas nascem para que cresçam pensando que só serão completas caso encontrem um homem bom e se casem (mito do amor romântico). Tudo isso é imposto às mulheres por uma sociedade patriarcal que precisa que elas acreditem que, sem homens, elas não sobreviverão.

O articulista ameaça as mulheres dizendo que, livres, elas estarão sozinhas. Não. Livres, elas serão apenas livres. Felizes. Emancipadas. Donas de sua própria vida e fazendo suas próprias escolhas. Inclusive a escolha de ficar sozinha – pois essa é uma escolha válida.

A Humanidade não vai acabar, há tantas pessoas na Terra que já se fala em riscos ambientais severos em alguns anos. Os homens, não os subestimo. Os homens, também livres da sujeição da heteronormatividade, agradecerão.

Somos estupradas

Uma garota de 16 anos foi estuprada por 30 homens. Eles filmaram. Eles publicaram na internet. A família dela viu. Todos viram. A notícia está por aí. O vídeo também. As pessoas dizem que a família tem culpa. Afinal, ela tinha 16 anos e estava dormindo na casa do namorado. As pessoas dizem que a menina tem culpa. Afinal, ela não devia estar se dando ao desfrute por aí.

O que aconteceu transcende a própria violência. O que aconteceu é fruto de como a sociedade enxerga as mulheres. O que aconteceu é o resultado de uma sociedade que insiste em fingir uma igualdade que nunca existiu e fecha os olhos para o abismo que separa homens de mulheres, em todas as esferas da vida.

Nós, mulheres, somos estupradas todos os dias. Nós, mulheres, somos violentadas todos os dias. Sofremos violência de todo tipo apenas porque somos mulheres, objetos, e alguém considera que podemos e queremos ser usadas, regradas, normalizadas. O dia-a-dia da mulher é enfrentando todo tipo de violência, e dói muito ver que essa violência está tão normalizada no imaginário social que as próprias mulheres não conseguem enxergá-la. Acham que é assim mesmo.

Somos obrigadas a saber nosso lugar. Mulher não pode sair sozinha, nem acompanhada de outras mulheres – é puta. Mulher tem que andar acompanhada de homem, assim é decente. Mulher tem que ser decente. Não pode ser puta.

Somos obrigadas a saber nos vestir. Não podemos usar o que queremos, porque mulher que usa decote, alcinha, short, saia curta, é puta. E puta merece cantada grosseira, merece passada de mão, merece assédio no ônibus, merece ser estuprada. Mulher tem que se dar ao respeito. Não pode ser puta.

Somos obrigadas a namorar, então noivar, então casar. Mulher que prefere viver solteira é encalhada, tiazona, que ninguém quer. Mulher solteira é vadia, e mulheres precisam ter família, se endireitar. Não pode ser vadia. Se casamos, somos obrigadas a ter filhos. Mulher que não é mãe é incompleta. É vazia, oca, encruada. Tem que ter filho, dar filho para o marido, senão é uma egoísta sem coração.

Somos obrigadas a cuidar da casa, porque a casa é nossa obrigação. Muitas pessoas moram nela, mas apenas a mulher tem o dever de cuidar. Mulher que não cuida da casa é relaxada, negligente, não liga para o marido nem para os filhos. Mulher tem que fazer comida, manter tudo limpo e arrumado, lavar a roupa, cuidar de tudo. Se não, foi mal criada. Mas mulher também tem que trabalhar fora. Mulher que não trabalha fora é dondoca, madame, só quer viver às custas do marido, é gastadeira, não contribui para a sociedade. Mulher tem que cuidar da casa e trabalhar fora, afinal, quem mandou casar e arrumar filho? Que aguente.

Somos proibidas de nos divertir. Mulher que sai à noite é puta. Mulher que vai ao barzinho tomar uns drinques e fica bêbada é puta. Mulher que vai ao cinema sozinha é encalhada. Mulher que viaja sozinha é louca, está se arriscando, vai ser sequestrada por aí. Se queremos nos divertir, temos que fazer com o marido, com a família. Mulher tem que ter família, senão é tiazona. Ou é puta, e não pode ser puta.

A sociedade que obriga as mulheres a obedecerem um padrão medieval de comportamento é a sociedade que estupra. É a mesma sociedade que justifica a violência sofrida pela mulher pela roupa que ela vestia, pelo lugar que ela frequentava, pelas pessoas com quem ela se relacionava. Nesse final de semana, não foi uma jovem estuprada por 30 homens. Foram todas nós, mulheres. O que fizeram com ela se acham no direito de fazer com todas. Enquanto essa sociedade acreditar que nós, mulheres podemos ser violentadas simplesmente porque somos mulheres.

Celebrar o que?

Publicado originalmente no dia 08 de março de 2016.

Preliminarmente, relembro que posto aqui minha opinião. Esse blog não tem objetivo de fazer ciência. Nem sempre deposito fidelidade científica ao que publico aqui. Tento apenas escrever sobre o que sei, nunca sobre o que não sei. Mas então…

Nenhuma luta deve ser desmerecida. Nem mesmo quando ela parece desnecessária. O feminismo vive um momento de alta e baixa, quase que ao mesmo tempo, porque é moda ser feminista, sem nem saber do que se trata o movimento, e criticar o feminismo, também sem saber do que se trata o movimento.

A luta feminista não é criação de mulheres que querem ser melhor que os homens. Nenhuma feminista quer ser melhor do que ninguém, quer apenas poder gozar dos mesmos direitos. Quer ser sujeito no processo, não objeto. Ver homens reproduzindo discursos e atitudes machistas hoje, em pelo Século XXI, é lamentável. Ver mulheres fazendo a mesma coisa é demonstração que o feminismo ainda tem muito caminho para percorrer.

Há uns 80 anos, as mulheres não votavam no Brasil. Sim, elas não eram cidadãs, pois não participavam do processo democrático (eram objetos, não sujeitos) e não gozavam dos direitos de cidadania. O voto não era proibido expressamente, mas não era autorizado expressamente, o que sugeria o desinteresse legislativo para com a participação feminina na escolha dos representantes do Estado.

No Código Civil de 1916, a mulher era obrigada a adotar o sobrenome do marido. Ela também não podia sequer litigar livremente em juízo sem autorização do marido, o que apenas em 1962 foi suprimido por lei nova. Ela também não podia trabalhar sem autorização do marido. Como bem esclarece Maria Berenice Dias [1], o casamento tirava da mulher a plena capacidade civil. Escolher não se casar também não era uma opção, pois mulher que não casa é puta ou encalhada.

Não pensem que isso tem muito tempo. Um século não é muito tempo em um mundo que conta com 2016 anos depois da vinda de Cristo, e muitos outros séculos antes do messias. Ainda hoje, a mulher é objeto em muitas sociedades. Alguns dizem que é uma questão cultural. Mas a pergunta feita por meu muito perspicaz professor Dr. Alexandre Coura é: se a mulher for sujeito nessa sociedade, ela aceitará determinadas imposições que lhe são feitas? Para saber se a questão é cultural ou não, a escolha é fundamental. E não, as mulheres não têm direito de escolher se são sujeitos ou objetos. Elas são. Simples assim.

A jovem branca de classe alta que se dispõe a ir a público dizer que gosta de machismo, ou que despreza o feminismo, só pode fazer isso por causa do mesmo feminismo que ela critica. É a luta de alguns que desobjetifica muitos. A mulher não está em condições de igualdade com o homem, não importa o que diga o artigo 1º da Constituição Federal.

Ainda hoje, a mulher recebe menos que o homem no mercado de trabalho.

Ainda hoje, a mulher cuida da família enquanto o homem “ajuda”. Ou ela cuida da família sem qualquer ajuda, porque a função do homem é sustentar a casa.

Ainda hoje, as mulheres não podem vestir a roupa que querem porque “mulher precisa se dar ao respeito” e não provocar os homens. Depois são estupradas e bem feito, ficaram se exibindo.

Ainda hoje, mulheres acompanhadas de outras mulheres estão sozinhas, pois presume-se que mulher não pode andar por aí sem companhia masculina que vira presa fácil para abusadores. E bem feito, quem mandou provocar?

Ainda hoje, mulheres são obrigadas a criar os filhos sozinhas, pois a elas não é permitido abortar enquanto aos homens é permitido abandonar seus filhos. Não é permitido? Então o que acontece quando eles abandonam?

Ainda hoje, mulheres são minoria nos postos mais altos das academias, excluídas das palestras e dos espaços de poder. As exceções que lá estão não condizem com uma efetiva abertura desse campo para a mulher.

Ainda hoje, mulheres precisam saber o seu lugar e ganhar panelas, liquidificadores ou pratos no aniversário, no dia das mães, no Natal.

Ainda hoje, mulheres precisam ser lindas e sempre jovens, enquanto homens têm autorização para engordar, ficar careca, envelhecer, adoecer e ficar cansados. As mulheres não podem adoecer, pois, se adoecem, quem vai cuidar das coisas?

Ainda hoje, as mulheres morrem simplesmente por serem mulheres.

Então, não sei bem o que celebramos no dia 08 de março. Uma luta que não acabou, um movimento que não pode esmorecer, e um discurso que precisa continuar. Enquanto uma mulher passar pelo que listei acima, o feminismo é necessário, sim. Não precisamos de flores, precisamos de respeito.

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DIAS, Maria Berenice. A mulher no Código Civil. Disponível em http://www.mariaberenice.com.br/uploads/18_-_a_mulher_no_c%F3digo_civil.pdf